O mercado financeiro brasileiro tem errado as projeções de inflação para baixo de forma consistente nos últimos 18 meses. As expectativas do Focus — pesquisa semanal do Banco Central com economistas de mercado — têm ficado sistematicamente abaixo do IPCA realizado.
Isso não é apenas um problema estatístico. Tem implicações diretas para a política monetária, para a precificação de ativos e para as decisões de investimento.
Nossa análise identificou três vieses principais nos modelos de previsão do mercado. O primeiro é a subestimação da inércia inflacionária nos serviços — especialmente educação, saúde e alimentação fora do domicílio. Esses componentes têm mostrado persistência muito maior do que os modelos tradicionais capturam.
O segundo viés é a superestimação do efeito desinflacionário da Selic alta. Os modelos assumem que juros altos transmitem para a inflação com defasagem de 6 a 9 meses. Na prática, a transmissão tem sido mais lenta — possivelmente porque o mercado de trabalho continua aquecido.
"Quando o mercado sistematicamente erra para baixo, o Banco Central precisa ser mais cauteloso. Não pode cortar juros com base em projeções que têm viés conhecido."
Se o mercado continua errando o IPCA para baixo, o Banco Central vai ser mais conservador no ciclo de cortes. Isso é consistente com o tom cauteloso do último comunicado do Copom. A implicação para renda fixa: os juros vão ficar altos por mais tempo do que o mercado precifica.